Dicas de leitura, vídeos e filmes para familiares e portadores

Oi pessoal, tudo bem?

Decidi fazer esse post após diversos pedidos por e-mail de materiais de leitura sobre o TPB. Têm muita coisa legal por ai, mas infelizmente a maioria é em inglês. De qualquer forma farei uma listinha para quem estiver interessado em se aprofundar mais no assunto, seja para portadores ou familiares.

LIVROS (colocarei diretamente o link do Amazon caso vocês queiram comprar algum)

-       http://www.amazon.com/The-Buddha-Borderline-Personality-Dialectical/dp/157224710X (é uma autobiografia de uma mulher que desde a sua adolescência luta contra o transtorno e encontra no budismo e na terapia dialética comportamental o caminho para sua recuperação)

-       http://www.amazon.com/Borderline-Personality-Disorder-Survival-    Guide/dp/1572245077/ref=pd_sim_b_3 (esse é um guia que explica muito bem o que é o transtorno e os mitos que envolvem a doença. É uma boa dica de leitura tanto para FAMILIARES quanto para portadores)

-       http://www.amazon.com/Borderline-Personality-Disorder-Demystified-Understanding/dp/1569244561/ref=pd_sim_b_8 (este livro é também explicativo e o interessante é que o psiquiatra que o escreveu tinha uma irmã com o transtorno)

-       http://www.amazon.com/Overcoming-Borderline-Personality-Disorder-Healing/dp/0195379586/ref=pd_sim_b_14 ( este é um ótimo guia para FAMILIARES de portadores)

-       http://www.amazon.com/Girl-Need-Tourniquet-Borderline-Personality/dp/158005305X/ref=pd_sim_b_62 (essa é outra autobiografia bem interessante)

-       http://www.amazon.com/Understanding-Treating-Borderline-Personality-Disorder/dp/1585621358/ref=sr_1_3?s=books&ie=UTF8&qid=1351783411&sr=1-3&keywords=borderline+personality+disorder+perry+hoffman (este é outro guia excelente para FAMILIARES E PROFISSIONAIS)

-       http://www.amazon.com/High-Conflict-Couple-Dialectical-Behavior-Validation/dp/157224450X/ref=sr_1_8?s=books&ie=UTF8&qid=1351783514&sr=1-8&keywords=marsha+linehan+dialectical+behavior+therapy  (ótimo livro para CASAIS)

-       http://www.amazon.com/Training-Treating-Borderline-Personality-Disorder/dp/0898620341/ref=sr_1_2?s=books&ie=UTF8&qid=1351783514&sr=1-2&keywords=marsha+linehan+dialectical+behavior+therapy (da Dra. Marsha Linehan – ensina as técnicas da terapia dialética comportamental)

-        http://www.amazon.com/Mindfulness-Acceptance-Expanding-Cognitive-Behavioral-Tradition/dp/1609189892/ref=sr_1_15?s=books&ie=UTF8&qid=1351784813&sr=1-15&keywords=marsha+linehan+dialectical+behavior+therapy (livro sobre Mindfulness – vale a pena muito a pena ler esse livro!)

-       http://www.amazon.com/Someone-Borderline-Personality-Disorder–Control/dp/1593856075/ref=sr_1_3?s=books&ie=UTF8&qid=1351784896&sr=1-3&keywords=marsha+linehan+borderline  (livro para FAMILIARES e pessoal que amam alguém com TPB)

LIVROS EM PORTUGUÊS

-       http://www.clubedeautores.com.br/book/21332–Sensibilidade_a_Flor_da_Pele ( da Helena Polak, muito bom tanto para familiares como para portadores)

-       http://clubedeautores.com.br/book/49166–Alta_Sensibilidade_Emocional (também da Helena Polak)

-       http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4258370/coracoes-descontrolados-ciumes-raiva-impulsividade-o-jeito-borderline-de-ser

 SITES

-       http://www.borderlinepersonalitydisorder.com/ (este é o mais completo que conheço)

-       http://www.nytimes.com/2009/06/16/health/16brod.html – Essa é uma matéria do jornal The New York Times. Ela é bem completa e tem excelentes informações.

-       www.borderlinepersonalitysupport.com – esse é o da Tami Green, uma mulher que se recuperou do TPB e hoje dá aconselhamento e treinamento para pessoas com o transtorno e suas famílias. Lá vc encontra vídeos e artigos.

-       www.ReThinkBPD.com – esse é o da Amanda Wang, que está fazendo um documentário sobre TPB – ela tb é border.

-       www.fbpda.org – esse é o da Amanda Smith que mora na Florida e tb está em recuperação! Lá há infos sobre conferências, novas pesquisas, dicas de leitura, etc.

-       www.BPDdemystified.com – esse é o site do Dr. Robert O. Friedel, autor do livro “BPD Demystified”

-       www.behavioraltech.org – esse é o site de treinamento da Terapia Dialética Comportamental, da Dra. Marsha Linehan

-       National Education Alliance on Mental Illness(NAMI) www.nami.org – tb vc encontra mtas infos de qualidade e pode mandar um e-mail para eles pedindo os vídeos das conferencias.

-       http://www.fbpda.org/storage/SAMind_201007.pdf (Matéria da revista Scientific American Mind – “When The Passion is the Enemy). Essa matéria é a melhor que já li sobre o TPB e ganhou um prémio da Associação de Psiquiatria Americana- leitura essencial tanto para FAMILIARES quanto para portadores)

-       http://www.mental-health-matters.com/borderline/139-awake-from-the-nightmare-of-borderline-self-absorption (um artigo para sair de vez da inércia)

-       http://www.psychologytoday.com/search/query?page=1&keys=borderline&x=0&y=0 ( site que disponibiliza  artigos de especialistas sobre o TPB e outras patologias.)

-       http://bpdfamily.com/ (como o nome já diz, esse é um site para FAMILIARES)

-       http://www.dbtselfhelp.com/ (site que ensina técnicas da terapia dialética comportamental. São simples e você pode usá-las no seu dia a dia).

VÍDEOS E CANAIS NO YOUTUBE

-       http://www.youtube.com/user/MeAndMyBlackTable?feature=g-all-u (esse sem dúvida é o melhor canal no youtube sobre o TPB. O rapaz é holandês (mas fala em inglês) e tem uma variedade grande de vídeos desde auto-mutilação até relacionamentos.)

-       http://www.youtube.com/user/bpdsupport (canal da Tami Green, uma borderline recuperada. Didático e como já sitei anteriormente ela é coaching de portadores e familiares do TPB e tem também o site com o mesmo nome)

-       http://www.youtube.com/user/RethinkBPD (canal da Amanda Wang, uma boxeadora que luta contra o TPB e é ativista na educação do transtorno. Vale muito a pena ver os vídeos dela. Também tem o site com o  mesmo nome do canal)

- http://www.youtube.com/user/NEABPD (conferencias de especialistas e portadores sobre o TPB – muito bom para FAMILIARES)

FILMES:

http://www.youtube.com/watch?v=967Ckat7f98 (“BACK FROM THE EDGE” Documentário sobre o TPB – para FAMILIARES e portadores)

Beijos,

Bruna

Porque é tão difícil mudar nossos comportamentos?

Porque é tão difícil mudar? Talvez porque não se queira mudar. Mas por que alguém que sofre de uma intensa dor emocional e vê a sua vida ser virada de cabeça para baixo, com perdas e agressões aos outros e a sí mesmo não ia querer transformar essa situação?

Depois de um bom tempo de estabilização, analisando minhas atitudes no passado e observando a atitude de algumas pessoas que também sofrem com este transtorno, percebi que há também perdas no processo de recuperação. E que algumas pessoas não querem enfrentá-las, pelo simples motivo de que algumas sensações dessa instabilidade emocional são extremamente prazerosas. Eu não estou aqui para discutir se são ou não sentimentos verdadeiros, acho que tudo que um indivíduo sente é verdadeiro dentro da sua realidade. E não estou louca em fazer essa afirmação. É só pensar um pouquinho, você já se apaixonou? Provavelmente a resposta seja: sim! Eu estou falando da “paixão borderline”, acho que você conhece, né? Essa conexão intensa que se tem com o outro quando um borderline está apaixonado é algo que nunca vi em alguém que não tem esse transtorno. Talvez por necessitarmos tanto do outro sentimos a relação como um salvamento, uma retirada do inferno com ticket de entrada ao paraíso. Para alguns borderline esse sentimento vai mais além das relações amorosas e também pode estar ligado à relações de amizades, tão intensas e “necessárias” quanto o homem ou a mulher amada.

Mas não é só na paixão que as emoções do borderline ficam “a flor da pele”. Acontece o tempo todo, ao ouvir determinada uma música, um filme,  ao olhar as estrelas,  ao receber carinho, uma palavra: tudo é amplificado. É como uma droga, que vicia, que enlouquece, ultrapassa os limites e podemos nos sentir perdidos e ao mesmo tempo poderosos. E então somos capazes de dar o mundo a alguém, ao mesmo tempo que somos capazes de jogar com os sentimentos das outras pessoas, estando conscientes ou não de que nosso lado “escuro” pode ser extremamente atractivo. E ao final tudo se resume a: “o que eu quero e amo” e “ao que eu não quero e odeio”. E alguns sabem disso, outros não. Esses últimos têm medo de crescer e sair do ninho seguro aonde suas necessidades são atendidas. E quando não são é quase como uma saída antecipada do útero materno e vem acompanhada com uma carga enorme de dor, raiva e frustração.

Acredito que não seja tão difícil entender porque alguns não querem mudar. Para o borderline a perda é algo quase insuportável. E para crescer/amadurecer é necessário fazer escolhas que implicam uma série de perdas. Eu tive perdas no meu processo e ainda terei muitas em minha vida, como todos os seres humanos. Mas tive que aprender a lidar com elas para tornar-me um indivíduo mais forte, equilibrado e capaz de suportar frustrações. Até porque essas últimas perdas têm a ver com as minhas escolhas. Mais difíceis são aquelas que não temos como controlar.

Talvez eu esteja sendo muita vaga ao falar de “mudanças”, “perdas”, “escolhas”, então darei um exemplo para ser mais clara. Como qualquer pessoa, eu só entrava numa relação se estivesse apaixonada. Mas a paixão ao mesmo tempo que me dava todas as sensações descritas acima, também me fazia mal, no sentido do ciúmes doentio, que se transformavam em agressões e ao final o relacionamento acabava e eu entrava no meu inferno emocional. Já sabendo que eu não era “qualquer pessoa” (no sentido de que todos somos diferentes) eu decidi que o melhor para mim era estar com alguém de quem eu não estivesse apaixonada e sim admirasse e gostasse, como um amigo. E hoje estou em um relacionamento que já dura 1 ano e meio e eu o amo profundamente. Eu me importo com os seus sentimentos e penso neles antes de tomar atitudes impulsivas. A felicidade dele é importante para mim. E este sentimento é muito diferente das paixões que vivi. Antes importava que o outro me fizesse sentir bem, depois, bem depois vinha a felicidade dele.  O amor que eu sinto não me consome, não me deixa eufórica, perdida, miserável e infinitamente “feliz”. A realidade é que na maioria do tempo esse amor me dá paz, é meu porto-seguro. Quando eu olho para ele sinto que não estamos sós. Somos duas pessoas diferentes aprendendo a conviver, a dividir e amar. Esse amor é um exercício diário de tolerância, compreensão, carinho e às vezes de “deixar passar” o que não é importante. É um aprendizado do que verdadeiramente é importante.

Talvez você se pergunte se eu não sinto falta de quando eu mergulhava no meu lado mais intenso. As vezes eu sinto. E eu entro em contato com esse meu lado, eu só aprendi quando fazê-lo. Como por exemplo quando eu tomo uma tacinha vinho sozinha, escuto música alta e escrevo sobre minhas emoções em textos que ficam guardados só para mim. Mas eu só me permito fazer isso quando me sinto bem. Se sei que algo não está legal não tomo nem uma gota de álcool. Aliás eu quase não bebo hoje em dia. Nunca fui de beber muito, mas em alguns período cheguei a usar o álcool e ansiolíticos (separados) para aliviar a dor. Hoje eu sei que é uma questão de conhecer a sí mesmo, respeitar seus limites e fazer escolhas, ainda que hajam perdas. E acredite, eu ganhei muito mais do que perdi.

Não tenha medo de mudar.

Um grande abraço a todos,

Bruna.

O ruído que não nos permite dormir em paz

Nota

Eu imagino que vocês já devem estar cansados de me ouvir dizer e escrever que a aceitação é o primeiro passo para sentir-se bem consigo mesmo. É algo que parece fácil, mas a verdade é que esse é o grande desafio para quem sofre do TPB. Eu me lembro que a vontade de morrer vinha do desejo de acabar com o ruído constante em minha cabeça, um ruído que não me deixava dormir, não me permitia respirar e tampouco viver. A vida era apenas uma questão de sobrevivência.  Era como um bombardeio de pensamentos: “eu não devia ter magoado tal pessoa, eu sou uma merda, eu sou feia, minha família não me aceita, eu nunca vou conhecer um cara legal, nunca terei uma carreira, porque eu sou assim? quanto tempo leva para essa dor passar? todos vão me deixar, eu sou louca? eu odeio as pessoas! Porque eu não consigo me sentir bem? Porque sou tão sensível? Porque eles me machucam tanto?, eu vou provar pra eles que sou capaz, como eu mostro pra eles que eu sou uma boa pessoas? Eu não me importo mais, serei o diabo agora, não é isso que eles pensam de mim?” E essas questões, intensas e contraditórias, vinham acompanhadas  com lembranças ruins de abandonos reais, crises, brigas, etc. Eu vivia sempre nos extremos, ou me arrependia  de minhas atitudes e queria responder às expectativas do núcleo familiar  ou de um namorado (nesse caso reprimindo qualquer sentimento ou atitude que poderia parecer “errada” aos olhos do outro) ou ia para um outro extremo  (mas igualmente pensando nos “outros”) aonde eu me comportava de uma maneira explosiva com a intenção de ferir a quem não me entendia e não me apoiava. Mas se comportar como vitima ou tentar reprimir seus sentimentos para agradar aos outros ou até mesmo tentar ferir aqueles que não te apóiam são três comportamentos que não têm nada a ver com aceitação e pior não é algo direcionado ao seu bem-estar, senão que ao mal estar do outro ou à busca pela aceitação do mesmo. Acontece que a recuperação do TPB só é possível quando você começa a olhar para dentro, não se procurando em agradar ou machucar o outro.  Eu pensava que só ficaria bem se tivesse um namorado compreensivo ou uma família que entendesse e soubesse lidar com a minha condição. Mas nenhuma dessas duas coisas aconteceu para que eu pudesse me recuperar. Eu melhorei porque eu realmente queria isso para mim. Isso significa que passei a me preocupar comigo e aceitar que talvez eu não tivesse todo o apoio que eu queria e que talvez  eu tivesse que aprender a ficar sozinha e que a minha condição poderia não mudar, eu só precisava aprender a lidar com ela. Então, o ruído foi se transformando em outra coisa, algo como: “Ok, eu sou uma pessoa extremamente sensível e não há nada de mal nisso, eu só preciso aprender a lidar com a dor até que ela passe. Eu tenho medo que as pessoas me abandonem porque na infância me senti abandonada devido a minha sensibilidade e determinadas circunstâncias e situações. Sei que algumas pessoas vão me abandonar, mas outras não . Não existe forma de saber quem o fará e quem não o fará, eu tenho que enfrentar esse risco, como qualquer outro ser humano, e aprender a lidar com as perdas que são parte da vida. Eu me arrependo das coisas ruins que fiz a mim e aos outros, mas é certo que eu não conhecia outra forma de lidar com essas situações. Então ao invés de me culpar e me torturar tentarei fazer de outra forma, e se eu não conseguir, tentarei outra vez. Não conheço ninguém que conseguiu fazer o seu melhor nas primeiras tentativas. Se eu fizer algo que eu não gostaria de ter feito vou me lembrar de algo que eu fiz bem e saberei que às vezes acertamos e outras erramos. Toda vez que me criticarem, ainda que eu esteja fazendo o melhor pra mim, lembrarei que o mais importante não são as ofensas alheias e sim a segurança que tenho de estar tentando. E se eu tiver que sentir algo sobre a falta de entendimento do outro será apenas um lamento. Não tentarei provar pra ninguém que sou o que eles pensam e tampouco tentarei provar que não sou o que eles pensam. Porque neste momento vou aceitar quem eu sou. E por isso eu não direi palavras em que não acredito só para testar o outro. Se eu achar que alguém me disse algo para me ofender eu perguntarei, com respeito, se eu interpretei bem o que me foi dito, sabendo que eu tenho a tendência de distorcer a realidade. E se algo me incomoda eu não vou mentir a respeito com o intuito de provocar ou “jogar” com os sentimentos de outra pessoa. Direi a verdade”.

Eu gostaria de explicar melhor o que significa “dizer a verdade”, porque acho que isso é  algo complicado para quem tem o TPB. Como os portadores deste transtorno dificilmente aceitam sua condição, o que acontece é que acabam seguindo modelos ideais ao invés de respeitar a própria condição e  seus limites. Meus relacionamento normalmente não davam certo porque meu foco era o desejo do outro, o que o outro esperava e queria de mim. Então eu me “transformava”nisso, até o momento em que não agüentava mais sustentar aquele papel e o que é pior, a repressão de todos os sentimentos os tornava ainda mais intensos. E de repente, quando já não suportava mais, a máscara caia e é claro que o cara ficava completamente perdido e caba terminando o relacionamento. Darei um exemplo recente de algo que estava acontecendo no meu namoro. Toda vez que ele queria sair à noite com seus amigos eu dizia que estava tudo bem, que ele deveria ir mesmo, etc e tal. Mas a verdade é que isso me causava uma angustia muito grande. E no outro dia, sem conseguir controlar meus sentimentos, terminava dizendo barbaridades para ele. Essa mesma história se repetiu várias vezes até que eu decidi não enganar a ele e nem mim. Expliquei que não tinha a ver com falta de confiança nele e sim em problemas de insegurança meus. E que realmente eu não me sentia bem quando ele saia sozinho para festas com os amigos. Conversamos bastante e no final decidimos que ele e eu também sairíamos para festas sozinhos apenas quando fosse aniversário de alguém ou alguma comemoração importante. Ele já foi a dois aniversários e não tivemos problemas. Agora me sinto mais segura e tranqüila depois que conversamos sobre o assunto e colocamos determinados limites em relação a esse lance de sair. Assim deve ser em todas as outras situações. Quando você respeita os seus sentimentos fica muito fácil respeitar os sentimentos dos outros.

Se você está tentando se recuperar do TPB, lembre-se que antes de começar qualquer mudança o primeiro passo é a aceitação. Quando eu comecei a me recuperar não tive aceitação de algumas das pessoas que eu considerava mais importantes na minha vida. Mas no momento que eu decidi ficar melhor por mim e não para provar para ninguém, no momento em que eu entendi que não era o fim do mundo não ser aceita pela própria família e ser a vitima ou a mal caráter não me levariam a lugar nenhum, eu finalmente pude me encontrar.

Um abraço e muita força!

Bruna.

A Família Disfuncional e o Transtorno Borderline

A medida que eu fui ganhando estabilidade emocional, pude entender também a dinâmica da minha família. Porque é muito difícil para uma pessoa conseguir enxergar determinados comportamentos dentro da família quando você mesmo é uma dessas pessoas que tem um papel que mantêm essa família disfuncional em funcionamento.

Eu sempre senti que carregava um peso muito grande nas minhas costas e sendo eu um dos pilares que sustentava essa “harmônia” da minha família disfuncional, era quase impossível questionar se esse peso todo que eu carregava (como culpa, raiva, frustação, sentimentos de vazio) era meu de verdade ou se parte desse peso era uma imposição para que eu fizesse parte da família.

Então eu fui atrás de informações sobre essa família que “não funciona bem” ou melhor, não funciona de forma saudável.  Vamos entender primeiro o que é essa família disfuncional.

A família disfuncional não consegue se comunicar de uma forma aberta. Numa família saudável os sentimentos podem ser expressados e não existe um “vencedor”, ou seja, todos os pontos de vista e sentimentos são levados em conta na comunicação familiar. Na família disfuncional isso não acontece, as pessoas não conversam olhando nos olhos, a empatia falha e prevalece a intolerância, um ponto de vista único que deve ser aceito por todos os indivíduos da família.

No site “Boa Saúde”da UOL, há uma matéria que diz:

Sempre que se fala em família disfuncional, estamos falando de doença nas famílias. Assim, temos todo o funcionamento familiar envolvido nesse problema”. Alguns autores psicanalistas, como José Bleger e Eduardo Kalina, desenvolveram bastante a questão das dinâmicas familiares. Pode-se falar em dois modelos básicos de desestruturação nas relações familiares: “há as famílias ‘cindidas’ e as famílias ‘simbióticas'”.

Nas primeiras, os membros das famílias não conseguem se relacionar entre si. Encontram-se divididos, dispersos. Funcionam e se relacionam como se, ao ficarem juntos, todos corressem riscos do ponto de vista emocional. Assim, as pessoas não podem ter um relacionamento afetivo, são frias entre si. A doença dessas famílias cindidas está na dificuldade de convívio. Os membros percebem que ao conviverem entre si eles se machucam e se afetam negativamente, uns aos outros.
Já no extremo oposto, temos as famílias simbióticas, aquelas em que os membros da família vivem num estado de fusão. Não há diferenciação entre os papéis familiares, estes são confusos e não divididos. As pessoas sentem dificuldades em viver independente dos outros membros da família, estão num estado de constante ‘grude’. Em ambos os casos, está-se falando de doenças familiares do ponto de vista do desenvolvimento afetivo, inter-relacional e de organização psíquica.”

Para que vocês possam entender ainda melhor, vamos olhar algumas “regras” (não faladas, mas que estão impostas) que podem haver numa família disfuncional:

-       Faça o que “pareça bom”, ainda que não seja honesto

-       Não perturbe e não afunde o barco

-       Negue coisas que você não quer ver, e elas Irão embora

-       Faça o que eu digo, ainda que eu faça o oposto

-       Expresse somente bons sentimentos

-       Não é certo sentir raiva ou tristeza

-       Você nunca deve questionar o nosso comportamento e sim aceitá-lo

-       Você deve se conformar com o que esperamos de você, aconteça o que acontecer

-       Sua necessidades não são mais importantes que nossas necessidades

Agora veremos algumas crenças e traços da personalidade de adultos criados em famílias disfuncionais:

-       Eles se sentem diferentes de outras pessoas e alguns acham que por alguma razão estão sendo punidos pela vida ou (para quem acredita) por Deus.

-       Eles tem dificuldade para confiar nas pessoas

-       Eles julgam a si mesmos e ignoram suas próprias necessidades

-       Sentem muita culpa

-       São “viciados em sinais de aprovação”, constantemente buscando afirmação

-       Eles tem dificuldade em sentir, identificar e expressar emoções

-       Eles tem medo de pessoas com raiva ou de criticas pessoais

-       Normalmente tentam controlar circunstâncias e relações e reagem de forma extrema a mudanças pelas quais não possuem nenhum controle

-       Costumam sentir-se desesperados, presos e vitimizados

-       Farão qualquer coisa para evitar dor e abandono

-       Tem dificuldades para terminar projetos

-       Podem ser impulsivos

-       Tem tendência a adicção de drogas

Então… o que tem o Transtorno Borderline a ver com a dinâmica da família disfuncional? Acho que eu não preciso dizer, não é?

Sei que o texto é grande, mas agüentem só mais pouco porque se vocês chegaram até aqui é porque talvez tenham se identificado com o tema e agora vem a parte dos papéis que a família escolhe para determinadas pessoas.

Esses papéis são imprescindíveis para que a família disfuncional possa sobreviver e manter seu “equilíbrio”. Normalmente eles são impostos na infância, porém, na vida adulta, o indivíduo continua a cumprir o mesmo papel. Quando a pessoa decide deixar o papel, a família tenta manter-lo ou substituir-lo por outra pessoa.

Vou colocar 4, mas existem outros:

O Herói: O herói costuma ser a criança mais velha. Ele é caracterizado por sua super-responsabilidade e conquistas. O herói permite que a família se assegure de que tudo está indo bem, já que pode sempre olhar para as conquistas do filho ou filha mais velho como uma fonte de orgulho e auto-estima. Os pais usam o herói como prova de que eles foram bons pais. Enquanto o herói pode ser um excelente aluno na escola e um líder nos esportes ou um empregado bem pago e sucedido, ele ou ela estão sofrendo de uma grande dor emocional e sentem culpa, como se nada que ele ou ela fizessem fosse bom o suficiente para curar a dor da família. A compulsão do herói por sucesso pode se transformar em estress e trabalho compulsivo. As qualidades do herói de ser o que ajuda e que cuida da família chama atenção positiva à pessoas que estão fora da família. Mas, apesar disso, o herói se sente isolado e incapaz de expressar seus verdadeiros sentimentos e experimentas intimidade nas relações.

O Scapegoat ou Bode Expiatório: (como eu fui o scapegoat na minha família, tenho mais material sobre isso. Quem quiser mande e-mail que eu envio o material): é normalmente o segundo filho. É caracterizado por seu comportamento agressivo, mas na verdade ele ou ela estão sofrendo porque a atenção positiva da família quase não existe ele tem sido ignorado. O bode expiatório costuma ir mal na escola, pode experimentar drogas, se envolver em relações caóticas como um pedido de socorro. Ele é um indivíduo que a família quer esconder. Por ele prefere chamar a atenção negativamente do que não ter atenção nenhuma. É normalmente a criança mais sensível e seus sentimentos são feridos facilmente. A família, para poder senti-se “sã”, usa o scapegoat como o representante de tudo que eles não querer ser e na verdade são. O scapegoat normalmente desenvolve problemas mentais. E sendo ele “doente”, a família pode ser “normal”. Assim eles escondem seus problemas psicológicos usando o scapegoat. A criança que é escolhida como scapegoat é aquela que “não faz nada certo”. Essa criança é vista como a culpada de tudo que é indesejável e ruim. Alguns scapegoats entram na armadilha de tentar cada vez mais e mais se redimirem nos olhos da família, para que eles possam finalmente serem respeitados e apreciados por quem eles realmente são. Porém, aos olhos da família, eles nunca poderão ser bons o suficiente e nessa tentativa em vão eles acabam se destruindo ou vão embora para longe da família. Alguns sucumbem ao papel de “problemático” e se comportam de forma oscilante, já que eles sempre só recém atenção negativa. Assim desistem de tentar agradar a família e se tornam realmente pessoas agressivas e se comportam como vitimas. O Scapegoat normalmente acorda tarde para a vida e só depois de muito tempo percebe que as coisas não eram como deveriam ser, e que o problema não era sua falta de esforço para conseguir respeito da família e que se ele não aceitasse o papel que recebeu, poderia conseguir respeito fora da família disfuncional.

A criança perdida: É caracterizada pela timidez, solidão e isolação. Ele ou ela se sentem como um estranho na família, ignorado pelos pais e familiares e sentindo-se sozinho. A criança perdida busca a privacidade da sua própria companhia para estar longe do caos familiar e pode ter uma vida rica em fantasia, dentro da qual, ele ou ela mergulham. A criança perdida normalmente tem pouca habilidade comunicativa, dificuldade com a intimidade e em relações. E pode ter confusões ou conflito a respeito da sua orientação sexual e sua função. Essa criança pode estar buscando atenção ficando doente. Essa criança pode tentar cuidar de si mesma se comportando de maneira compulsiva, levando a problemas como obesidade, uso de drogas, etc. A solidão a criança perdida pode levar a problemas mentais e baixa auto-estima. Ele ou ela costumam ter poucos amigos e tem dificuldade em encontrar um parceiro para as relações amorosas.

O mascota: Esse papel se manifesta como o indivíduo que faz “palhaçada”, é divertido, hiperativo. O mascota é normalmente a criança menor e busca ser o centro das atenções na família (piadinha interna: eu tentei ser a mascota, mas já tinham o papel de bode expiatório prontinho pra mim), normalmente é aquele que entretém os familiares fazendo com que todos se sintam melhor com sua comédia e suas piadas. Porém o mascota pode estar sendo super protegido dos reais problemas da vida. Ele experimenta intensa ansiedade e medo e persiste em comportamentos imaturos quando se torna um adulto. Ao invés de lidar com os problemas , o mascota foge deles mudando de assunto e fazendo piado. Ele usa a diversão para gerar risos no seu circulo de amigos, mas normalmente não é levado a sério ou não recebe bem rejeição e criticas. Ele normalmente tem dificuldade em concertar-se e focar-se e pode desenvolver déficits de aprendizagem. Ele também sente medo de olhar honestamente para seus sentimentos e/ou comportamentos, portanto não está nunca em contato com eles. A atividade social frenética do mascota expressa na verdade um mecanismo de defesa contra sua intensa ansiedade e tensão interior. A incapacidade em ligar com esses sentimentos pode levá-lo a pensar que está louco. Se essa ansiedade e desespero não forem tratados, não é incomum que o mascota desenvolva uma doença mental, se torne dependente de drogas ou até mesmo cometa suicídio.

Bom gente, vou ficando por aqui. Se gostaram me avisem que faço outras postagens sobre esse assunto.

Beijos!

Bruna

Aceite a vida como ela é…

…e não como você gostaria que fosse. 

1. Ninguém me entende

Má notícia: talvez ninguém te entenda mesmo e se você ficar esperando para que sua família te entenda, seus amigos te entendam ou seu parceiro te entenda, é provável que sua vida seja para sempre frustrante. Boa notícia: para ser feliz não é necessário ser entendido, não é necessária a aprovação de ninguém, só a sua! Também não é preciso revoltar-se quando não te entendem. Ser entendido e ouvido é muito bom, mas se você não tem isso na sua vida, vai aprender que “não ser entendido”pode ser bem legal.  Como assim? É isso mesmo! Gente, vamos pensar juntos. Um exemplo: a maioria das pessoas não se preocupa com o meio ambiente, e vocês acham então que “todo mundo” está certo em não dar a minima para o próprio planeta? Loucos são aqueles que reciclam o próprio lixo e não jogam nem um palito de dente na rua? Pessoas não se entendem desde que o mundo é mundo. Não espere ser entendido para viver bem com você mesmo. Não tente convencer ninguém de que você tem razão. Você não precisa disso! Aprenda a respeitar a sua opinião ainda que ninguém concorde com ela.

2. Mas é tão difícil…

A vida é difícil. Não se prenda a fantasias de que todos são felizes e normais, menos você. Não se prenda à fantasia de que todos são bonitos, saudáveis, bem-humorados e bem-sucedidos, menos você. Esqueça a “vida perfeita”, ela não existe, pra ninguém! Tente ter a melhor vida que você possa ter, acredite, isso é mais que suficiente. Deixe a ilusão de perfeição de corpo e mente para as revistas de beleza. Você é real! O que você quer fazer e o que você gosta de fazer é a melhor vida que você terá. E se você ainda não sabe o que quer fazer ou o que gosta de fazer, tente descobrir e talvez o processo de descoberta seja mais importante que a descoberta em si.

3. Não agüento mais

Provavelmente o que você não agüenta mais não é a vida em si e sim lutar todos os dias contra um ideal de vida que você mesmo criou e que será impossível de alcançá-lo, simplesmente porque não existe esse ideal, pra ninguém.  Esqueça o fácil, não é fácil pra ninguém. Para algumas pessoas pode ser ainda mais difícil e a vitória ai é tentar, todos os dias. Perder é necessário e continuar tentando também.

Dói, dói muito às vezes, mas você deve aceitar a dor para depois tentar entendê-la.

4. Não sei mais o que fazer

Se você está esperando que eu diga: “Vá ver a natureza” você está enganado. O que eu quero dizer para você é: “Faça o que sua mente/corpo te pede sem se auto-destruir”. Se você quer ficar em casa chorando, fique, mas sem culpa! Quer ver 10 horas de televisão, veja! Mas sem culpa! Faça o que você tem vontade de fazer e se você não tem vontade de fazer nada, não faça. Só respeite o seu desejo e seja mais compreensível consigo mesmo.

5. Descobri que tenho TPB e estou com medo

Os seus sentimentos e emoções não vão piorar porque você descobriu que existe um nome para o que você sente.  É só um nome e não muda quem você é.

6. Eu me odeio

O que você odeia em você? Seu corpo? Sua personalidade? Sua falta de personalidade? Pessoas normais tem celulite, estrias, flacidez e barriga. Eu ganhei 4 kg esse ano e estava surtando com isso. Mas depois me dei conta que ganhei um ano  cheio de comidas deliciosas! Não me privei de nada! Aqui na Argentina provei sorvetes deliciosos, comi massas espetaculares, vinhos, carnes! Sinceramente foi muito mais divertido viver assim do que passando fome e vontade.  Então eu entendi que o tempo passa, o corpo muda e eu não tenho que me adequar a roupas que já não me servem e sim comprar outras que em nesse momento da minha vida ficarão lindas em mim. Você quer ser aceito, mas… por quem? Ninguém ama outra pessoa pelo corpo que tem e há mais beleza no natural do que você possa imaginar.

Quanto aos seus erros, tente se perdoar, e eu digo isso seriamente! Se perdoar é o primeiro passo para poder conseguir vencer o TPB. Aceite e entenda que você não consegue controlar as emoções como a maioria e que a maioria não é melhor que você por isso. Eu entendi depois de muito tempo que às vezes eu vou sair do controle, não tem jeito. E eu fui buscar pessoas que me aceitam assim. E acredite, existem pessoas que aceitarão você com suas limitações. Mas antes é preciso se amar e tentar todos os dias. Eu tento, todos os dias, e sinceramente não sei se vou conseguir algum dia NUNCA MAIS me descontrolar. Mas nesse tentar todos os dias evitei magoar pessoas que amo e principalmente evito, quase sempre, fazer mal a mim mesma. Só tente, nada mais.

7. Porque eu sou assim?

Eu poderia explicar aqui as questões genéticas, ambientais, os traumas e etc e tal. Mas se você tem o TPB, tente ver por outro ângulo. As pessoas normalmente não aceitam a vida que tem, sempre querem mais disso, menos daquilo. A sua dor provavelmente será muito menor se você aprender a conviver com as suas limitações (e lembre-se, todos seres humanos possuem limitações) e ver o lado bom disso tudo. Borderlines são mais intensos, apaixonados, sedutores, empáticos! Sim, são empáticos, porque sabemos como é terrível sentir vazio, dor emocional e sentimos empatia pelas pessoas que se sentem tristes, vazias. Outra coisa legal é poder olhar para o outro, para a dor do outro. Eu achava que ninguém sofria como eu e talvez a maioria não sofra tanto mesmo no dia a dia. Mas elas também sofrem! E eu percebi que quando estava muito muito mal não podia ver a dor do outro de tão absorvida que estava na minha própria dor. E ao mesmo tempo comecei a me sentir mais forte que qualquer pessoa porque eu estava aprendendo a sobreviver todos os  com uma dor quase insuportável.  E ai a sobrevivência, aos poucos, se tornou vivência. A dor insuportavél foi embora, ficou a minha ansiedade e minha fobia social. Ok, eu aceito que todos os dias é uma luta pra sair de casa, mas ao mesmo tempo é uma chance que eu tenho de vencer todos os dias, porque eu saio de casa todos os dias, ando nas ruas, tomo o ônibus, saio pra me divertir, caminho por ai e ninguém sabe o quanto foi difícil enfrentar os olhares dos transeuntes. Mas eu sei e sei também que enfrentei o meu problema, aceitei o meu problema e isso já me faz feliz. Pra que ser normal se você pode ser você? Eu pareço normal para as pessoas, mas eu sei que há algo em mim que é especial, uma força que me empurra para frente. E essa força sou eu, essa força é você, somos nós. Pare de brigar com você, faça as pazes com os seus erros, com os seus defeitos, com os seus medos. Aceite-os e você saberá o que fazer.

Um abraço grande para todos!

Bruna.