O ruído que não nos permite dormir em paz

Nota

Eu imagino que vocês já devem estar cansados de me ouvir dizer e escrever que a aceitação é o primeiro passo para sentir-se bem consigo mesmo. É algo que parece fácil, mas a verdade é que esse é o grande desafio para quem sofre do TPB. Eu me lembro que a vontade de morrer vinha do desejo de acabar com o ruído constante em minha cabeça, um ruído que não me deixava dormir, não me permitia respirar e tampouco viver. A vida era apenas uma questão de sobrevivência.  Era como um bombardeio de pensamentos: “eu não devia ter magoado tal pessoa, eu sou uma merda, eu sou feia, minha família não me aceita, eu nunca vou conhecer um cara legal, nunca terei uma carreira, porque eu sou assim? quanto tempo leva para essa dor passar? todos vão me deixar, eu sou louca? eu odeio as pessoas! Porque eu não consigo me sentir bem? Porque sou tão sensível? Porque eles me machucam tanto?, eu vou provar pra eles que sou capaz, como eu mostro pra eles que eu sou uma boa pessoas? Eu não me importo mais, serei o diabo agora, não é isso que eles pensam de mim?” E essas questões, intensas e contraditórias, vinham acompanhadas  com lembranças ruins de abandonos reais, crises, brigas, etc. Eu vivia sempre nos extremos, ou me arrependia  de minhas atitudes e queria responder às expectativas do núcleo familiar  ou de um namorado (nesse caso reprimindo qualquer sentimento ou atitude que poderia parecer “errada” aos olhos do outro) ou ia para um outro extremo  (mas igualmente pensando nos “outros”) aonde eu me comportava de uma maneira explosiva com a intenção de ferir a quem não me entendia e não me apoiava. Mas se comportar como vitima ou tentar reprimir seus sentimentos para agradar aos outros ou até mesmo tentar ferir aqueles que não te apóiam são três comportamentos que não têm nada a ver com aceitação e pior não é algo direcionado ao seu bem-estar, senão que ao mal estar do outro ou à busca pela aceitação do mesmo. Acontece que a recuperação do TPB só é possível quando você começa a olhar para dentro, não se procurando em agradar ou machucar o outro.  Eu pensava que só ficaria bem se tivesse um namorado compreensivo ou uma família que entendesse e soubesse lidar com a minha condição. Mas nenhuma dessas duas coisas aconteceu para que eu pudesse me recuperar. Eu melhorei porque eu realmente queria isso para mim. Isso significa que passei a me preocupar comigo e aceitar que talvez eu não tivesse todo o apoio que eu queria e que talvez  eu tivesse que aprender a ficar sozinha e que a minha condição poderia não mudar, eu só precisava aprender a lidar com ela. Então, o ruído foi se transformando em outra coisa, algo como: “Ok, eu sou uma pessoa extremamente sensível e não há nada de mal nisso, eu só preciso aprender a lidar com a dor até que ela passe. Eu tenho medo que as pessoas me abandonem porque na infância me senti abandonada devido a minha sensibilidade e determinadas circunstâncias e situações. Sei que algumas pessoas vão me abandonar, mas outras não . Não existe forma de saber quem o fará e quem não o fará, eu tenho que enfrentar esse risco, como qualquer outro ser humano, e aprender a lidar com as perdas que são parte da vida. Eu me arrependo das coisas ruins que fiz a mim e aos outros, mas é certo que eu não conhecia outra forma de lidar com essas situações. Então ao invés de me culpar e me torturar tentarei fazer de outra forma, e se eu não conseguir, tentarei outra vez. Não conheço ninguém que conseguiu fazer o seu melhor nas primeiras tentativas. Se eu fizer algo que eu não gostaria de ter feito vou me lembrar de algo que eu fiz bem e saberei que às vezes acertamos e outras erramos. Toda vez que me criticarem, ainda que eu esteja fazendo o melhor pra mim, lembrarei que o mais importante não são as ofensas alheias e sim a segurança que tenho de estar tentando. E se eu tiver que sentir algo sobre a falta de entendimento do outro será apenas um lamento. Não tentarei provar pra ninguém que sou o que eles pensam e tampouco tentarei provar que não sou o que eles pensam. Porque neste momento vou aceitar quem eu sou. E por isso eu não direi palavras em que não acredito só para testar o outro. Se eu achar que alguém me disse algo para me ofender eu perguntarei, com respeito, se eu interpretei bem o que me foi dito, sabendo que eu tenho a tendência de distorcer a realidade. E se algo me incomoda eu não vou mentir a respeito com o intuito de provocar ou “jogar” com os sentimentos de outra pessoa. Direi a verdade”.

Eu gostaria de explicar melhor o que significa “dizer a verdade”, porque acho que isso é  algo complicado para quem tem o TPB. Como os portadores deste transtorno dificilmente aceitam sua condição, o que acontece é que acabam seguindo modelos ideais ao invés de respeitar a própria condição e  seus limites. Meus relacionamento normalmente não davam certo porque meu foco era o desejo do outro, o que o outro esperava e queria de mim. Então eu me “transformava”nisso, até o momento em que não agüentava mais sustentar aquele papel e o que é pior, a repressão de todos os sentimentos os tornava ainda mais intensos. E de repente, quando já não suportava mais, a máscara caia e é claro que o cara ficava completamente perdido e caba terminando o relacionamento. Darei um exemplo recente de algo que estava acontecendo no meu namoro. Toda vez que ele queria sair à noite com seus amigos eu dizia que estava tudo bem, que ele deveria ir mesmo, etc e tal. Mas a verdade é que isso me causava uma angustia muito grande. E no outro dia, sem conseguir controlar meus sentimentos, terminava dizendo barbaridades para ele. Essa mesma história se repetiu várias vezes até que eu decidi não enganar a ele e nem mim. Expliquei que não tinha a ver com falta de confiança nele e sim em problemas de insegurança meus. E que realmente eu não me sentia bem quando ele saia sozinho para festas com os amigos. Conversamos bastante e no final decidimos que ele e eu também sairíamos para festas sozinhos apenas quando fosse aniversário de alguém ou alguma comemoração importante. Ele já foi a dois aniversários e não tivemos problemas. Agora me sinto mais segura e tranqüila depois que conversamos sobre o assunto e colocamos determinados limites em relação a esse lance de sair. Assim deve ser em todas as outras situações. Quando você respeita os seus sentimentos fica muito fácil respeitar os sentimentos dos outros.

Se você está tentando se recuperar do TPB, lembre-se que antes de começar qualquer mudança o primeiro passo é a aceitação. Quando eu comecei a me recuperar não tive aceitação de algumas das pessoas que eu considerava mais importantes na minha vida. Mas no momento que eu decidi ficar melhor por mim e não para provar para ninguém, no momento em que eu entendi que não era o fim do mundo não ser aceita pela própria família e ser a vitima ou a mal caráter não me levariam a lugar nenhum, eu finalmente pude me encontrar.

Um abraço e muita força!

Bruna.