Porque é tão difícil mudar nossos comportamentos?

Porque é tão difícil mudar? Talvez porque não se queira mudar. Mas por que alguém que sofre de uma intensa dor emocional e vê a sua vida ser virada de cabeça para baixo, com perdas e agressões aos outros e a sí mesmo não ia querer transformar essa situação?

Depois de um bom tempo de estabilização, analisando minhas atitudes no passado e observando a atitude de algumas pessoas que também sofrem com este transtorno, percebi que há também perdas no processo de recuperação. E que algumas pessoas não querem enfrentá-las, pelo simples motivo de que algumas sensações dessa instabilidade emocional são extremamente prazerosas. Eu não estou aqui para discutir se são ou não sentimentos verdadeiros, acho que tudo que um indivíduo sente é verdadeiro dentro da sua realidade. E não estou louca em fazer essa afirmação. É só pensar um pouquinho, você já se apaixonou? Provavelmente a resposta seja: sim! Eu estou falando da “paixão borderline”, acho que você conhece, né? Essa conexão intensa que se tem com o outro quando um borderline está apaixonado é algo que nunca vi em alguém que não tem esse transtorno. Talvez por necessitarmos tanto do outro sentimos a relação como um salvamento, uma retirada do inferno com ticket de entrada ao paraíso. Para alguns borderline esse sentimento vai mais além das relações amorosas e também pode estar ligado à relações de amizades, tão intensas e “necessárias” quanto o homem ou a mulher amada.

Mas não é só na paixão que as emoções do borderline ficam “a flor da pele”. Acontece o tempo todo, ao ouvir determinada uma música, um filme,  ao olhar as estrelas,  ao receber carinho, uma palavra: tudo é amplificado. É como uma droga, que vicia, que enlouquece, ultrapassa os limites e podemos nos sentir perdidos e ao mesmo tempo poderosos. E então somos capazes de dar o mundo a alguém, ao mesmo tempo que somos capazes de jogar com os sentimentos das outras pessoas, estando conscientes ou não de que nosso lado “escuro” pode ser extremamente atractivo. E ao final tudo se resume a: “o que eu quero e amo” e “ao que eu não quero e odeio”. E alguns sabem disso, outros não. Esses últimos têm medo de crescer e sair do ninho seguro aonde suas necessidades são atendidas. E quando não são é quase como uma saída antecipada do útero materno e vem acompanhada com uma carga enorme de dor, raiva e frustração.

Acredito que não seja tão difícil entender porque alguns não querem mudar. Para o borderline a perda é algo quase insuportável. E para crescer/amadurecer é necessário fazer escolhas que implicam uma série de perdas. Eu tive perdas no meu processo e ainda terei muitas em minha vida, como todos os seres humanos. Mas tive que aprender a lidar com elas para tornar-me um indivíduo mais forte, equilibrado e capaz de suportar frustrações. Até porque essas últimas perdas têm a ver com as minhas escolhas. Mais difíceis são aquelas que não temos como controlar.

Talvez eu esteja sendo muita vaga ao falar de “mudanças”, “perdas”, “escolhas”, então darei um exemplo para ser mais clara. Como qualquer pessoa, eu só entrava numa relação se estivesse apaixonada. Mas a paixão ao mesmo tempo que me dava todas as sensações descritas acima, também me fazia mal, no sentido do ciúmes doentio, que se transformavam em agressões e ao final o relacionamento acabava e eu entrava no meu inferno emocional. Já sabendo que eu não era “qualquer pessoa” (no sentido de que todos somos diferentes) eu decidi que o melhor para mim era estar com alguém de quem eu não estivesse apaixonada e sim admirasse e gostasse, como um amigo. E hoje estou em um relacionamento que já dura 1 ano e meio e eu o amo profundamente. Eu me importo com os seus sentimentos e penso neles antes de tomar atitudes impulsivas. A felicidade dele é importante para mim. E este sentimento é muito diferente das paixões que vivi. Antes importava que o outro me fizesse sentir bem, depois, bem depois vinha a felicidade dele.  O amor que eu sinto não me consome, não me deixa eufórica, perdida, miserável e infinitamente “feliz”. A realidade é que na maioria do tempo esse amor me dá paz, é meu porto-seguro. Quando eu olho para ele sinto que não estamos sós. Somos duas pessoas diferentes aprendendo a conviver, a dividir e amar. Esse amor é um exercício diário de tolerância, compreensão, carinho e às vezes de “deixar passar” o que não é importante. É um aprendizado do que verdadeiramente é importante.

Talvez você se pergunte se eu não sinto falta de quando eu mergulhava no meu lado mais intenso. As vezes eu sinto. E eu entro em contato com esse meu lado, eu só aprendi quando fazê-lo. Como por exemplo quando eu tomo uma tacinha vinho sozinha, escuto música alta e escrevo sobre minhas emoções em textos que ficam guardados só para mim. Mas eu só me permito fazer isso quando me sinto bem. Se sei que algo não está legal não tomo nem uma gota de álcool. Aliás eu quase não bebo hoje em dia. Nunca fui de beber muito, mas em alguns período cheguei a usar o álcool e ansiolíticos (separados) para aliviar a dor. Hoje eu sei que é uma questão de conhecer a sí mesmo, respeitar seus limites e fazer escolhas, ainda que hajam perdas. E acredite, eu ganhei muito mais do que perdi.

Não tenha medo de mudar.

Um grande abraço a todos,

Bruna.